sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

BOCA, BATATA E PERNAS: RELATO DE MULHER E DIREITOS DAS USUÁRIAS DO SUS

FARRE Margarita - Mulher esperando




Manhã radiante em Goiânia, propícia para ficar na fila de atendimento em um CAIS de um bairro periférico desta cidade. A conversa dos que estavam na fila me fez esquecer as dores e a vontade de vomitar que sentia e que me havia levado àquela Unidade de Saúde.

O alívio momentâneo apareceu quando vi que a porta do consultório se abriu para que eu fosse atendida, vi o médico sentado atrás da mesa, o qual me pergunta, sem me olhar, o que estava sentindo, não me dando tempo de sentar.

-Bom dia Doutor, estou sentindo dor na boca do estômago, sabe, e vontade de...Minha fala foi bruscamente interrompida.

-Olhe! O estômago não tem” boca”, assim como não existe a “batata da perna”, estou cansado das queixas de vocês que ficam inventando coisas e que não sabem falar, gente pobre é dureza!

- Peço desculpas Doutor, pela minha pobreza, quer dizer... por não saber falar...

-Pegue sua receita. O próximo paciente.

Saí do consultório pior do que entrei; chorando não pela dor da boca do estômago, mas pela minha pobreza e ignorância. Fui caminhando de volta para casa, revoltada com meus pais, que não me deram educação para falar com alguém de tanta classe como esse Doutor, pois, eu deveria conhecer a anatomia do estômago para merecer pelo menos o olhar desse distinguido profissional.

A revolta foi maior quando na minha casa, com o dicionário nas mãos fiquei sabendo que o estômago tem boca* sim, de tão grande, parece uma caverna cujo apelido é antro*; logo pensei que talvez somente o estômago de pobre tivesse boca, antro ou caverna devido às fomes sofridas. Estômago de gente instruída deve ter boquinha, caverninha ou antrinho.

Vomitei de vez quando li que a perna tem batata, quer dizer, que existe batata da perna*. Mas, o pobre só pode ter batata nas pernas de tanto andar e de esperar, afinal não estaria justificado o nome do músculo da perna: gastrocnêmico**; se tem batata tem de ter estômago, portanto as pernas dos ricos devem ter batatinha inglesa, batatinha doce, para que o antro do estômago aparente engolir pequenas fatias do bolo das riquezas.

Enquanto isso, eu persisto engrossando as batatas das minhas pernas, sem mamas e sem cabelos, lutando para que o câncer e a quimioterapia não acabem comigo, lutando para que o antro do desrespeito e da discriminação não destrua o que me resta de integridade e de dignidade.
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DEFINIÇÕES DO DICIONÁRIO MICHAELIS* Boca do estômago: parte medioventral superior, sobre ou em frente do piloro; epigastro; anticárdio.* Antro: sm (lat antru) 1 Caverna, cova ou gruta natural, escura e profunda, que em geral serve de covil às feras. 2 Morada de monstro ou fantasma. 3 Lugar perigoso ou de corrupção. ** Gastrocnêmico: adj+sm (gastro1+cnêmio) Anat Diz-se do, ou o músculo maior e mais superficial da barriga da perna, que se origina de duas cabeças dos côndilos do fêmur e tem seu tendão de inserção unido com o do solear para formar o tendão de Aquiles; também conhecido como batata da perna: parte de trás da perna ou panturrilha.
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DIREITOS DAS USUÁRIAS E DOS USUÁRIOS DO SUS: O segundo e terceiro princípios do documento esclarecem ao cidadão sobre o direito a um tratamento adequado para seu problema de saúde. Também fazem referência à necessidade de um atendimento humanizado, acolhedor e livre de qualquer discriminação (preconceito de raça, cor idade ou orientação sexual, estado de saúde ou nível social). CONHEÇA OS DIREITOS DAS USUÁRIAS DO SUS: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/cartilha_integra_direitos_2006.pdf


(Norma Esther Negrete Calpiñeiro)

3 comentários:

isa disse...

concordo!!!!

na minha opiniao tem pessoas que acham que tem o rei na barriga e fica criticando as pessoas que nao tiveram a mesma sorte de terem estudado e de se tornarem alguem na vida e consequentimente as pessoas que foram educadas de uma maneira diferente!!!!

nao devemos criticar as pessoas e sim orientar quem sabe falar menos que nos!!!!

Érica disse...

O problema está justamente na falta de conhecimento dos nossos direitos. A maioria ignora os direitos das usuárias do SUS e por isso, em situações semelhantes à descrita na crônica, se deixam humilhar e ainda se culpam pela falta de oportunidades que tiveram na vida.
Sinto vergonha de profissionais como esse, que ao invés de reverter em prol da população os conhecimentos adquiridos em uma universidade pública, sustentada pelos nossos impostos, usam seus conhecimentos somente para benéficios próprios e para humilhar os menos favorecidos.

Para que isso mude é necessário que conheçamos nossos direitos e lutemos para que eles sejam respeitados em todas as instâncias.

Que o mundo seja menos injusto e que o Brasil seja um país mais igualitário e menos preconceituoso.
Um abraço às companheiras do CPM.

ANA disse...

Artigo interessante e que nos a refletir com tristeza o caos do nosso sistema de saúde.

Bonito espaço

Ana (PALMAS)